Há duas teorias sobre o advento do karate no Brasil: uma credita que o karate teria sido introduzido informalmente pelos imigrantes japoneses que aqui aportaram a partir de 1908, e a outra versão, que é a mais aceita em virtude dos registros de época, afirma que a partir da década de 50, os mestres japoneses Yoshihide Shinzato (estilo Shorin Ryu), Mitsusuki Harada e Juichi Sagara (estilo Shotokan), Koji Takamatsu (estilo Wado Ryu) e Seiichi "Shikan" Akamine (estilo Goju Ryu) implantaram de modo organizado as suas escolas de karate no Estado de São Paulo, para somente na década seguinte difundí-lo pelos Estados do Rio de Janeiro e Bahia, os quais tiveram a ajuda de outros mestres que chegariam posteriormente.
O primeiro faixa preta brasileiro foi o Hanshi Benedito Nelson Augusto dos Santos, o Mão de Ferro, que formou como faixas preta de Karate-Do Shotokan, entre outros, o Senpai Teruo Furusho, Fernando Gomes da Silva e Getúlio Taigen.

Renshi Fernando Gomes da Silva: introdutor do Karate-Do Shotokan na Região dos Lagos
Nos idos de 1970, o militar da Aeronáutica Fernando Gomes da Silva conquistou a faixa preta de Karate-Do Shotokan. Já no final da década de 70, Fernando Gomes da Silva introduziu o Karate na Academia Ventapane, que era situada na Alameda São Boaventura em Niterói, RJ. A estratégica posição da academia, ajudou a promover a expansão desta arte marcial por toda a Região dos Lagos.
Sensei José Carlos: introdutor do Karate-Do Shotokan em Maricá/RJ
No ano de 1977, Sensei José Carlos dos Santos Celestino, faixa preta 1° dan, então Senpai de Fernando Gomes da Silva, introduziu o Karate-Do Shotokan na cidade de Maricá, RJ. Suas primeiras aulas na cidade foram ministradas na residência do Sr. Carlos Paixão, militar reformado e entusiasta de artes marciais, uma vez que portava a faixa marrom de judo e já era um avançado praticante de capoeira. Seu filho mais novo, Carlos Henrique Cardoso da Paixão, foi o primeiro aluno do Sensei José Carlos na cidade.
Sensei Henrique Paixão e seu pai Carlos Paixão, que é Mestre de capoeira e faixa marrom de judo
Antônio Carlos Cardozo (Tuninho Paixão), irmão mais velho de Henrique Paixão, iniciou no karate-do em 1979 na academia Ipon, localizada no Centro de Niterói/RJ. A Academia Ipon era de propriedade do Sensei Fernando René, que por sua vez era aluno do Sensei Tadashi Takeushi, um excelente karate-ka enviado ao Brasil pela Nihon Karate Kyokai (NKK).
DÉCADA DE 80
Desde o final da década de 70, Sensei José Carlos continuou ministrando aulas simultaneamente no bairro Pedreiras e no Colégio Cenecista Maricá, com isto, as turmas tomaram enorme proporções, seguindo a tendência mundial de massificação desta arte marcial, que era sistematicamente divulgada pelo cinema e televisão.
Turma do Colégio Cenecista Maricá. Ao fundo e ao centro, de braços sobrepostos, o ainda faixa laranja Henrique Paixão
Em virtude dos custos e da distância do trajeto Maricá-Niterói, Antônio Cardozo foi convencido por seu irmão a treinar com o Sensei José Carlos em Maricá.
Motivado por problemas pessoais, em 1985 Sensei José Carlos se muda para Santos, SP, e Henrique Paixão, seu Senpai, ainda faixa marrom, assume as suas numerosas turmas de karate-do.
Antônio Cardozo, ainda faixa marrom, formara suas primeiras turmas em Maricá. Junto com seu irmão, em 1986, procuram no Hospital Central da Aeronáutica (HCA), localizado no bairro Rio Comprido, Rio de Janeiro, o Sensei Teruo Furusho, então Presidente da Federação de Karate do Estado do Rio de Janeiro (FKERJ) e da Universal Clube de Artes Marciais (UNICAM), entidade que se aproximara da Shotokan Karate Internacional Federation (SKIF), fundada e presidida pelo Sensei Hirokazu Kanazawa.
Em número de praticantes, o auge do Karate em Maricá ocorreu nos anos de 1986 a 1990, quando os irmãos Paixão mantiveram enormes turmas, muitas colhidas do sucesso dos filmes Karate Kid I e Karate Kid II.
Ainda em 1986, Maricá sediou o maior campeonato de sua história, o UNICAM I, evento nacional que reuniu nada menos que 800 karate-ka no ginásio do Colégio Cenecista Maricá. O atleta que obteve destaque neste evento foi o campista Marcelo Terra, aluno do Sensei Tetsuo Mizuno (Academia Butokukai de Campos), que na final derrotou o maricaense José Marcelo Figueira Rodrigues, então Senpai de Henrique Paixão. Um ano após, Antônio Cardozo, aluno de Teruo Furusho, prestou Exame de Faixa e se tornou o 1° faixa preta oriundo de toda a Região dos Lagos.
Sensei Antônio Cardozo ladeado por seus deshi na União Karate Shotokan (UKS)
DÉCADA DE 90
O início da década de 90 foi marcado pela fundação oficial da Associação Maricaense de Karate-Do (AMK) em 04/06/1991, tendo o Sensei Henrique Paixão como presidente, e da União de Karate Shotokan (UKS) do Sensei Antônio Cardozo, além do tardio exame para a faixa preta de Henrique Paixão, o mais antigo praticante da cidade.
1990/1991 foi o período das maiores conquistas do karate esportivo desta geração. Como destaque, o 4° lugar dentre 64 equipes conquistado no Campeonato Brasileiro Interclubes realizado em Três Corações, MG. A equipe maricaense, única do estado a chegar a fase semi-final, foi composta por José Mauro de Figueiredo (UKS), Sandro de Andrade Castelo Branco (AMK), Hamilton Carrera (AMK), Márcio Fernandes (AMK) e José Roberto de Oliveira Braga (AMK).

Sensei Henrique Paixão (esq.) e alunos em 1991
Em Exame de Faixas realizado em 1992 pela FKERJ e Confederação Brasileira de Karate (CBK) na Fundação Osório, Rio Comprido, foram formados os primeiros faixas pretas treinados essencialmente em Maricá, sendo eles: Márcio Fernandes (AMK), José Roberto de Oliveira Braga (AMK) e José Mauro de Figueiredo (UKS). Todos foram aprovados com louvor, tendo José Roberto de O. Braga alcançado a maior média geral dentre todos os candidatos (mais de 60 de shodan a sandan), o que lhe rendeu reverências por parte do então presidente da FKERJ, Sensei Shingeme Kohara. Fizeram parte desta Banca Examinadora os Mestres: Sadamu Uriu, Lirton Monassa, Benedito Nelson Augusto dos Santos, Alcyone Machado, Shingeme Kohara, Teruo Furusho e Fernando Gomes da Silva.
Ainda em 1992, o desligamento de Teruo Furusho da FKERJ, motivado por sua perda na eleição para a presidência da CBK, provocou a reaproximação técnica do karate maricaense com o Sensei Fernando Gomes da Silva, então Secretário Geral da FKERJ e Coordenador do Karate na Região dos Lagos.
Sensei Antônio Cardozo (dir.) e kohai em Exame de Faixa
DÉCADA DE 2000
No ano 2000, Ricardo Queiroz, um ex-aluno faixa laranja do Sensei Antônio Cardozo, tornou-se prefeito da cidade.
Neste mesmo ano o Sensei Henrique Paixão, agora advogado, se candidatou pela 2ª vez ao cargo legislativo de vereador da cidade de Maricá. Derrotado, foi convidado para assumir a Superintedência de Esportes, o que seria uma grande oportunidade de implantar um antigo sonho da AMK: levar a prática do karate-do ao seio das escolas públicas da cidade. Vários projetos foram apresentados e a prefeitura preteriu o karate-do em preferência ao judo. Como o acesso às políticas esportivo-educacionais não se ofereceram ao karate-do em função da dupla derrota, um dos alunos do Sensei Antônio Cardozo, por problemas pessoais decidiu deixá-lo.
Por conta própria, João Tzoulas decide prestar exame para a faixa preta 2° dan, em Olaria, RJ, sendo reprovado por deficiência técnica. Este fato o motivaria a se desligar da federação oficial, FKERJ, que até hoje detém rigorosos critérios técnicos para aprovação de faixas pretas. Pouco tempo depois, buscaria abrigo em uma federação paralela de dissidentes políticos.
Em 2004, o Sensei Carlos Henrique Cardoso da Paixão, agora faixa preta 4° dan pela FKERJ e CBK, conquistou o mandato de vereador em oposição ao governo municipal, o que insolitamente custaria caro às associações AMK e UKS e todos os seus filiados ligados ao karate oficial (reconhecido pelo MEC, COB e COI) da cidade, uma vez que atletas da AMK com inúmeras conquistas de renome nacional e internacional foram exclusos das políticas de apoio esportivo da Prefeitura Municipal de Maricá. Tendo em vista o prévio acordo político-eleitoral quando da reeleição do então prefeito Ricardo Queiroz e João Tzoulas, agora representante de uma organização paralela em dissidência política, tal fato encontra explicação.
Após um longo período de jejum em competições de expressão, em julho de 2005, em Fortaleza, CE, José Roberto Braga conquistou o Campeonato Brasileiro de Karate Oficial (CBK) como um dos técnicos da FKERJ. Neste mesmo campeonato, Eric Henrique Barbosa Braga, 10 anos, faixa roxa, conquista uma medalha de bronze para o karate oficial da cidade após 12 anos de jejum.
Após 10 anos na faixa preta 2° dan, José Roberto Braga é convocado por seu Sensei a prestar o Exame de Faixa realizado pela FKERJ no SESC Madureira em 11/12/2005. A Banca Examinadora foi composta pelos Sensei Celso Rodrigues, Geraldo Ferreira da Silva, Fernando Gomes da Silva, Amaury Alves Pereira e Eraldo Luiz da Silva Soares, que juntos somavam nada menos que 28 dan. Dentre os trinta candidatos de todo o Estado do Rio de Janeiro, de shodan a yondan, que se apresentaram para o exame, José Roberto Braga foi aprovado para a faixa preta 3° dan com a melhor média geral de todo o Exame de Faixa, mais uma vez em sua transparente carreira.
De 2002 a 2009, pela AMK do Sensei Henrique Paixão, os karate-ka Eric Henrique Braga e Larissa Barbosa Braga, filhos e alunos do Sensei José Roberto Braga, acumularam nada menos que 6 medalhas internacionais e 22 medalhas nacionais, incluindo o ouro Pan-Americano 2008 no Chile, o Vice Pan-Americano 2009 em El Salvador, o Vice Sul-Americano 2009 na Colômbia, o bronze Sul-Americano 2008 na Argentina, o Penta Brasileiro e Bi da Copa do Brasil de Larissa Barbosa Braga, e os títulos de Campeão Pan-Americano 2008 no Chile, Campeão Sul-Americano 2008 na Argentina, Bi Campeão Brasileiro e da Copa do Brasil de Eric Henrique Braga, além da histórica vitória de Larissa Barbosa Braga sobre a Tri Campeã Brasileira de Kata, aluna do técnico da Seleção Brasileira Genival Ferreira, na final da Copa do Brasil 2008.
DIAS ATUAIS
Nos dias atuais, os Sensei Antônio Cardozo e Henrique Paixão são renomados advogados, treinam por conta própria e ministram aulas para os seus alunos mais antigos de karate-do em suas residências. José Roberto Braga, até hoje Senpai de Henrique Paixão, é professor formado em Educação Física, dá aulas voluntariamente para a comunidade escolar pelo projeto social de sua autoria, denominado "Vencer a si próprio", e em seu próprio dojo, o Kojo no tsuki (Luar sobre a lagoa), onde treina sistematicamente o karate-Do, divulgando-o através de sua equipe de alto rendimento esportivo.
Parte 2 - Histórico Mundial do Karate-Do
OKINAWA - JAPÃO - EUROPA - EUA
Norteado pelos princípios filosóficos:
Esforçar-se para a formação do caráter (disciplina);
Fidelidade para com o verdadeiro caminho da razão (sinceridade);
Criar o intuito de esforço (determinação);
Respeitar acima de tudo (respeito e humildade);
Conter o espírito de agressão (auto-controle);
o Karate-dō, (“caminho das mãos vazias"), é uma arte marcial desenvolvida a partir de métodos autóctones de lutas de Okinawa (ilha ao sul do Japão) influenciada pelo intercâmbio com a China meridional desde o século XV.
O Karate-Do é uma arte oriental de ataque e defesa que se fundamenta na educação da vontade e em apurado treinamento físico e mental. Enfatiza as técnicas de percussão (atemi waza), que consistem predominantemente em golpes como chutes, socos, joelhadas, cotoveladas, golpes com a palma da mão aberta, bloqueios de articulações e projeções, sempre utilizando-se do próprio corpo como instrumento de ataque e defesa. Um praticante de Karate-Do é denominado "karate-ka" e tem como meta a perfeita integração entre corpo, mente e espírito. O treino de Karate-Do pode ser dividido em três partes principais:
Kihon (ginástica dos fundamentos);
Kata (padrões de lutas imaginárias contra vários oponentes);
Kumite, que é a luta propriamente dita. A forma desportiva, ou luta com regras, é o Shiai-Kumite.
O Karate-Do moderno data de maio de 1922, quando o professor primário Gichin Funakoshi introduziu a arte em Tóquio a convite do Ministro da Educação. Um ano antes, Funakoshi realizara uma bem sucedida demonstração para o príncipe herdeiro Hirohito, que passava por Okinawa a caminho da Europa. É creditado a Gichin Funakoshi a criação do estilo Shotokan, que significa "casa de Shoto". Shoto era o pseudônimo que Funakoshi utilizava para assinar as suas caligrafias ao som dos pinheiros (sho) sendo ondulados (to) pelo vento.
O Shotokan, dentre os principais e mais influentes estilos de Karate, é o mais praticado do mundo devido à enorme divulgação que Gichin Funakoshi, Okinawa, fomentou ao levá-lo à capital do Japão, Tóquio, nos idos de 1922.
Após uma conturbada era por causa da 2ª Guerra Mundial e das mortes por tuberculose de seu filho Yoshitaka (Gigo) Funakoshi e de sua esposa, Gichin Funakoshi atende a liderança de Masatoshi Nakayama, um de seus Senpai, que em 1948 organiza a famosa reunião na Universidade Takushoku (a popular Takudai), com o intuito de “padronizar” o Karate-Do Shotokan, que já se propagava por todo o país. O encontro contou com a presença de Gichin Funakoshi e de outros Mestres da época. Um ano após, era fundada a Nihon Karate Kyokai (Japan Karate Association ou Associação Japonesa de Karate).
Gichin Funakoshi faleceu em 26/04/1957, em Shuri, Japão. A organização de sua cerimônia fúnebre foi disputada por sua associação, a Shotokai, liderada por Shigeru Egami, e a NKK, liderada por Masatoshi Nakayama. A Shotokai venceu a disputa com o apoio da família de Funakoshi e, em represália, a NKK não enviou nenhum representante para a cerimônia. Esta seria a primeira grande divisão do Karate-Do Shotokan, mesmo contra os ideais de unificação de seu fundador.
No período do pós-guerra, somente após o falecimento de Gichin Funakoshi, a NKK organiza em território japonês os primeiros formatos de competição, e devido a seu sucesso, creditou-se ser esta a grande fórmula de propagação da arte através do esporte. Com o propósito de disseminar o Karate-Do pelo mundo, a NKK destaca Mestres como Nakayama e seu Senpai Hirokazu Kanazawa para o continente europeu e Hidetaka Nishiyama e Teruyuki Okazaki, em 1960, para os EUA.
Em 1961, Nishiyama funda a All America Karate Federation (AAKF), em Los Angeles, EUA.
Anos mais tarde, com o Karate sedimentado e organizado em diversos países do mundo, sob as lideranças de Jacques Delcourt (França) e de Nakayama, em 1970 é fundada a World Union Karate Organizations (WUKO). Neste mesmo ano é realizado o primeiro Campeonato Mundial de Karate da história, em Tóquio, Japão.
O KARATE-DO CHEGA AO BRASIL
Finalmente na década de 50 o Karate-Do desembarca no Brasil.
Demoraria aproximadamente 30 anos para que o Karate brasileiro alcançasse a sua autonomia política, pois até então, conforme legislação da época, era regido por um departamento da CBP (pugilismo) que agregava a todos os estilos, linhagens e correntes políticas.
Ter o Karate no programa olímpico é um sonho antigo da comunidade marcial. Como os Sensei aqui no Brasil representavam diferentes organizações internacionais como WUKO, IAKF, ISKF, NKK e SKIF (representada aqui pela UNICAM desde os anos 80), o consenso para a criação de uma única organização passou por momentos conflitantes.
De 1974 a 1984 o Brasil esteve afastado do circuito mundial da WUKO (atual WKF) em função do japonês radicado nos EUA, Shihan Hidetaka Nishiyama, ter perdido a vice-presidência da WUKO em 1973, o que lhe motivou a fundar uma outra organização mundial de Karate um ano após, a IAKF. Como vários Mestres aqui no Brasil estavam alinhados com Nishiyama, decidiram então filiar-se a IAKF e deixar a WUKO. Somente em 1985, quando o Sensei Enio Vezzuli, Senpai de Taketo Okuda, trouxe ao Brasil os representantes da WUKO, que buscava entendimento com a IAKF por intermédio do COI, foi que o Brasil voltou à WUKO e reestreou no mundial da Austrália no ano de 1986, tendo Enio Vezzuli como técnico.
Ainda em 1986, motivado pela preferência do COI em reconhecer em caráter provisório a WUKO, Hidetaka Nishiyama decide refundar a IAKF sob a égide de International Traditional Karate Federation (ITKF). No ano seguinte, em 15/04/87, inesperadamente falece o grande líder do Karate mundial, Shihan Masatoshi Nakayama, presidente da NKK desde 1954.
Finalmente em 11 de setembro de 1987 a Confederação Brasileira de Karate fora fundada, o que não impediu a dupla filiação mundial do Brasil a WUKO e a ITKF. Quando o COI, através dos comitês nacionais (no Brasil, o COB), exigiu a filiação única de seus países membros a WUKO, o então Diretor do Departamento de Karate da CBP, Sensei Yasutaka Tanaka, contrariado com a medida do COB, decide fundar outra federação de Karate. Como o presidente do Conselho Nacional de Desportos (CND) era o seu aluno Manoel José Gomes Tubino, ele o pressionou para que o CND reconhecesse uma nova federação estadual de Karate, o que era proibido com a legislação da época. Este processo estendeu-se para os tribunais, onde o renomado jurista Dr. Paulo Perry conseguiu "provar" a "diferença" entre os dois "Karates" através de uma incrível manobra, na qual ele afirmou que o Karate da WUKO era uma modalidade esportiva, enquanto que o Karate da IAKF era outra, traçando um paralelo entre o futebol de campo e o futebol de salão. Com isto, em 25/11/1986 nascia a Federação de Karate-Do Tradicional do Estado do Rio de Janeiro em oposição a já existente FKERJ, previamente fundada em 1975. Utilizando-se desta jurisprudência, em 1988 a Confederação Brasileira de Karate-Do Tradicional seria fundada. Em 1992 a Lei Zico abriu caminho legal para a criação de diversas confederações e ligas de uma mesma modalidade. Em 1998 a Lei Pelé também contribuiria para este processo. Não é difícil perceber que num país com dimensões continentais existissem muitas insatisfações e interesses político-pessoais diversos. Dentre eles podemos citar:
Eleição para a nova diretoria da CBK em 1992. O candidato da situação era o seu Diretor Técnico Teruo Furusho, e o da oposição era o presidente da Federação Paulista, Edgar Ferraz. Como o resultado foi empate, uma nova eleição deveria ser realizada, mas o candidato da situação se recusou e preferiu se desligar desta confederação.
O período de 1992 a 1997 fora conturbado para a FKERJ, e culminou na perda da reeleição da família Kohara. Alguns dos derrotados se desligaram e se juntaram ao movimento “interestilos”, preconizado por Teruo Furusho e pelo ex-presidente da federação paulista, Osvaldo Messias. A fim de "encher" a nova organização, práticas estranhas são adotadas, vários Sensei são tentados através de propostas de maior participação política e de facilidades na obtenção de graduações (dan). Muitos são seduzidos pelas “vantagens”.
WUKO x IAKF / NKK x SKIF
As competições de Karate se tornam um grande sucesso de popularidade mundo afora. Este sucesso seria fatal, pois com o enorme número de praticantes, mais e mais instituições, regulamentos e interesses foram surgindo.
Hidetaka Nishiyama, na cidade de Nova York, EUA, em novembro de 1974, após perder a vice-presidência da WUKO, funda a International Amateur Karate Federation (IAKF), que agregaria principalmente o estilo Shotokan da NKK. A IAKF, como organização mundial paralela a já existente WUKO, foi um desserviço a expansão do Karate-Do pelo mundo conforme Nakayama imaginara, pois sua aproximação junto ao COI fora prejudicada com esta divisão da então unificada WUKO.
Esta, se não a maior, foi a segunda grande divisão do Karate no mundo: WUKO (Nipo-européia) x IAKF (Nipo-americana).
O Judo tornou-se olímpico sem maiores traumas a partir dos Jogos de Tóquio em 1964 devido aos unificados esforços de Jigoro Kano.
Até 1977 Hirokazu Kanazawa era o Chefe do Departamento de Instrução Internacional da NKK, e era de sua responsabilidade a manutenção da união entre todos os Mestres que difundiam o Karate-Do pelo mundo. Durante um Torneio de Confraternização houve um desentendimento de ordem pessoal entre os Sensei Shirai, Enoeda e Asano. Como o Sensei Kanazawa não conseguiu consertar o ocorrido, conforme sua delegada função, Sensei Nakayama resolveu expulsá-lo (jomei) da NKK. Um ano após o ocorrido, Kanazawa fundaria a Shotokan Karate Internacional (SKIF), seguindo assim o seu caminho através da criação de uma nova escola de Karate.
Especialmente nos anos 80, a SKIF teria forte influência no Karate brasileiro através da UNICAM, organização de Teruo Furusho com filosofia "inter-artes marciais", visto que Teruo Furusho era Diretor Técnico da FKERJ e da CBK. As escolas NKK e SKIF, essencialmente japonesas, devido às suas influências técnicas e políticas, gozam de status de entidade mundial, o que ocorre até hoje através da promoção de seus próprios campeonatos mundiais a despeito da entidade criada previamente para este devido fim, ocasionando numa certa confusão sobre os múltiplos campeões mundiais que isto produz e na nebulosidade a que são submetidos os almejados patrocinadores e imprensa. Esta foi a terceira grande divisão do Karate Shotokan.
O KARATE-DO E O COI
Devido a popularidade global do Karate como arte marcial e esporte, a formação de uma única federação internacional tornava-se necessária. Como os critérios para um esporte entrar no programa olímpico sempre mudam, as organizações caminham na mesma direção para adaptar-se e atender as demandas da "Carta Olímpica".
Após a fundação da WUKO, em 1970, vários esforços foram feitos para incluir o Karate nos Jogos Olímpicos – o maior símbolo das realizações do homem no campo desportivo. No dia 06 de junho de 1985, a WUKO foi oficialmente reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). Em 1993, na Argélia, para adaptar-se às regras do Comitê Olímpico Internacional, foi exigida a união da ITKF e da WUKO, nascia a WKF, fato este que traria um desenvolvimento direcionado à promoção do Karate mundial.
A ITKF continuou independente por divergências no regulamento (pela 1ª vez grandes mudanças) e por discordar da participação política que lhe seria designada.
No dia 18 de março de 1999 o COI ,em sua 109º sessão, Seul, Coréia do Sul, deu ao Karate seu certificado, confirmando o reconhecimento em caráter definitivo da WKF, de acordo com o artigo 29 da "Carta Olímpica", como a federação mundial dirigente da modalidade Karate.
Além da intenção de incluir o Karate nos Jogos Olímpicos, o objetivo da WKF é de unificar todas as organizações que pratiquem Karate como esporte ou como uma arte marcial tradicional, além de lutar também para promover ligações dentro de um espírito de amizade entre os karate-kas do mundo. A WKF, que tem 175 países filiados, através das suas federações nacionais reconhecidas pelos respectivos governos e/ou Comitês Olímpicos, representa o Karate mundial, coordena todas as atividades de Karate ao redor do mundo, estabelece regras técnicas e operacionais, organiza e controla reuniões internacionais e toma as decisões sobre vários assuntos que possam surgir entre os membros. É através das federações continentais, vinculadas a WKF, que o Karate participa dos Jogos Continentais Olímpicos, entre eles os Jogos Pan-Americanos e Sul-Americanos.
LEI ZICO E LEI PELÉ
Graças às fragmentadoras Leis Zico e Pelé, criadas pensando-se essencialmente para os casuísmos do futebol, atualmente o Ministério dos Esportes do Brasil reconhece não menos que 9 confederações só de Karate, sendo que a única autorizada a representar o país oficialmente é a CBK, a mais antiga e representativa, pois detém o maior n° de filiados e é vinculada ao COB.
As maiores conseqüências deste fato são o enfraquecimento das organizações, uma vez que dividem os parcos resursos governamentais destinados à área, além de confundir os patrocinadores e imprensa, e ocasionar em competições de nível duvidoso nas organizações menores, fato que ocorre não tão somente nas regiões metropolitanas, mas principalmente no interior do país onde a desinformação é grande em virtude das dimensões continentais do país, do baixo nível cultural e da esperteza que alimenta a ganância, a vaidade e o orgulho pessoal.
Parte 3 - Cronologia do Karate-Do Shotokan
Parte 4 - Linhagem do Karate-Do Maricaense
1° - GICHIN FUNAKOSHI (Okinawa - NKK e Shotokai)
2° - MASATOSHI NAKAYAMA (Japão - NKK)
3° - JUICHI SAGARA (Brasil) / TADASHI TAKEUCHI (Brasil) / HIROKAZU KANAZAWA (Japão)
4° - BENEDITO NELSON (1° faixa preta brasileiro - HIEN KAN) / FERNANDO RENÉ (IPON)

5° - FERNANDO GOMES DA SILVA (HIEN KAN - FKERJ) / TERUO FURUSHO (HIEN KAN - UNICAM)

6° - JOSÉ CARLOS (VENTAPANE) / HENRIQUE PAIXÃO (AMK - VENTAPANE - IPON - UNICAM) / ANTÔNIO CARDOZO (IPON - AMK - UNICAM - UKS)
7° - JOSÉ ROBERTO DE O. BRAGA (AMK) / MÁRCIO FERNANDES (AMK) / JOSÉ MAURO DE FIGUEIREDO (UKS)
8° - ARMINDO LOBO Jr. (UKS) / SANDRO CASTELO BRANCO (AMK) / CLÁUDIO CARVALHO (AMK)
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